Werther em quadrinhos – Leia as orelhas

CONTRACAPA
“Seria grave se todos não tivessem uma vez na vida uma época em que Werther parecesse escrito para si” (Goethe)

ORELHAS
“Tome cuidado com os sofrimentos do jovem que lhe apresento. Caminhamos lado a lado durante cerca de seis anos sem nos aproximarmos. Agora, emprestei à sua história meus sentimentos, e isso cria um conjunto surpreendente!” – é assim que Goethe se refere a seu herói, Werther.
Escrito em menos de três meses (do início de fevereiro ao fim de abril de 1774), por um jovem Goethe de apenas vinte e quatro anos, Os sofrimentos do jovem Wether foi o primeiro grande sucesso do poeta alemão, consolidando-se através dos tempos como uma das maiores produções da literatura universal.
Primeiro grande romance moderno da literatura alemã, a obra é dita ‘pré-romântica’ –antecipando muitos elementos do que viria a ser o romantismo –, e pertence ao movimento Sturm und Drang, que marca esse período na Alemanha. Por oposição aos ideais iluministas, que ganhavam destaque desde o século XVII com a Revolução Científica, advém uma nova sensibilidade poética fundada nas paixões da alma e num sentimento de transcendência – num para-além da razão em que o subjetivismo, então, passa ao primeiro plano. Toda a construção de Werther, com efeito, parece ter sido pensada a fim de destacar o sujeito em seu drama maior, no qual se vê completamente impotente frente à cólera que o acomete e às paixões que o dominam; essas que conjugam, de certa forma, a própria exuberância da Natureza por ele percebida (de um panteísmo característico dos pré-românticos).
A forma escolhida, o romance epistolar, coloca o leitor em contato com a personagem de modo magistral. Se é verdade que o talento de Goethe dela se utiliza para fazer passar o subjetivo ao objetivo, nosso espírito experimenta uma empatia desmedida ao deitarmos o olhar por sobre páginas, fazendo com que não exageremos ao dizer que sentimos, nós mesmos, o furor transcendental vivido por Werther. Isso não foi sem consequências: talvez tanto quanto por seu valor artístico e literário, a obra ficou conhecida por ter provocado uma onde de suicídios logo após seu lançamento, o que serviu de protótipo para que um sociólogo norte-americano denominasse Efeito Werther esse tipo de fenômeno de massa.
Goethe diz que alimentou seu herói “com o sangue de meu próprio coração”. Conta que só podia escrever a partir de suas vivências intensas… com efeito, a narrativa contém diversos elementos que remetem diretamente à vida do autor, dos quais se destacam sua paixão frustrada por Charlotte Buff e o trágico fim de um amigo, Karl Jerusalem. Não deixa de ser estranho, contudo, que extraído de sua experiência pessoal, nos toque a cada um tão profundamente, a tal ponto que Werther parecesse “escrito para si”.
A adaptação para os quadrinhos nos coloca em contato com o romance de Goethe de uma forma totalmente nova e nos permite apreciar aspectos de seu universo que dificilmente poderiam ser levados em conta em uma outra forma de apresenta-la. Assim é, por exemplo, que o tão agradável traço de X conduz o leitor pela tipicidade da arquitetura alemã – a qual o poeta tinha particular admiração – e pelos cenários em que a sociedade burguesa marcava a época, mas também pelas paisagens em cujo movimento e profusão natural Werther vê refletida sua tormenta.

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