Werther em quadrinhos – Entrevista com o quadrinista

Werther em quadrinhos – Entrevista com o quadrinista

Leia entrevista com Daniel Gisé, autor da quadrinização do romance clássico da literatura alemã, Os sofrimentos do jovem Werther.

O que é um clássico para você?
Para mim um clássico é um livro que lida com questões humanas universais e fundamentais que continuam as mesmas com o passar dos anos.

Qual a sua relação com os clássicos da literatura? Como leitor e como professor? (penso também nos cursos que você tem ministrado, em que aparecem jovens trabalhando, por exemplo, com Machado de Assis).
Eu adoro ler clássicos, ver filmes clássicos, ler HQs clássicas, para mim é essencial ter contato com obras de outras épocas, é enriquecedor em termos de estética, visão de mundo e autoconhecimento. Seria uma limitação muito grande focar somente na arte produzida hoje. Percebo que muita coisa que é vendida como novidade hoje na verdade vem evoluindo há muito tempo.
Gostaria de aprofundar mais a questão da leitura com meus alunos. Sempre passo uma lista de sugestão de leitura e comento com eles sobre coisas que eu gosto, mas fica nisso e nós acabamos trabalhando mais o desenho e a linguagem das HQs. Foi surpreendente ver alunos usando referências como Machado de Assis e Edgar Allan Poe em um curso de quadrinhos que ministrei.

Quando você leu pela primeira vez Os sofrimentos do jovem Werther? O que significou então?
Na época eu estava na faculdade de Artes Plásticas e estava estudando a teoria das cores do Goethe. Adorei a visão do Goethe sobre as cores e busquei uma obra de literatura para conhecer mais e escolhi Werther. Eu tinha mais ou menos a mesma idade do Werther – 21 ou 22 anos – e vivia angústias parecidas com as do personagem. O tema central do livro é sobre o amor impossível por uma mulher casada e o consequente suicídio por amor, mas também mostra o jovem que reflete sobre a vida, o conflito entre fazer o que gosta ou abrir mão disso para trabalhar em uma carreira promissora por pressão da família, a busca por uma personalidade autêntica… Foi com essa parte que me identifiquei. Acho que estas questões não envelhecem.

Poderia nos contar um pouco sobre seu processo de criação deste álbum?
O trabalho começou com a leitura do livro e, ao mesmo tempo, uma pesquisa com a moda da época. Assisti muitos filmes e pesquisei livros de história da moda. Li o livro várias vezes. Na primeira leitura fiz anotações e produzi um pequeno resumo do livro. Desde o início fui tentando perceber quais eram os momentos-chave da estória e fui acrescentando detalhes e cortando passagens desnecessárias até produzir o primeiro tratamento do roteiro. Trabalhei neste roteiro para deixar somente o essencial, ao mesmo tempo em que fazia um rascunho das páginas desenhadas, dividindo trechos do roteiro em páginas e quadrinhos. No momento estou fazendo o desenho definitivo das páginas a lápis. Ainda faltam a arte final e as cores.

Como foi roteirizar Goethe? Como escolheu o que “ficava” do texto?
Foi ótimo roteirizar o livro. Percebi que normalmente nossa leitura tende a ser superficial. Procurei ver todas as cenas do ponto de vista de cada personagem e entendendo suas motivações. Isso enriquece muito a leitura. Após a leitura você pode voltar a um ponto anterior da história e rever um trecho onde uma frase que antes parecia dita ao acaso, e depois, conhecendo melhor a personagem, essa mesma frase adquire um novo sentido. Lendo e relendo o livro, resumi a narrativa em alguns momentos principais que serviram para mim como uma espécie de mapa para me orientar na síntese da estória. Tudo o que fosse imprescindível para levar a narrativa a estes momentos estaria dentro do roteiro o resto ficaria de fora.

Qual o significado deste álbum em preparação para o conjunto de sua obra até agora?
É muito importante. Eu estava ansioso para fazer uma adaptação literária. Gosto muito de ler, sempre gostei dos clássicos e sabia que seria um processo interessante, tem sido ótimo.

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