Em texto de apresentação do livro Branca-Flor e outros contos, Bartolomeu Campos de Queirós destaca algumas motivações da escritora expressas em sua obra que contribuíram para fazer dela uma grande referência da literatura infantil e juvenil em língua portuguesa. O texto está publicado a seguir.

“Branca-flor e outros contos”,
Por Bartolomeu Campos de Queirós

“Não há como perceber o rompimento com o cotidiano da linguagem, construindo algo relevante e original, se desconhecemos a tradição. É necessário informar-se sobre o percurso pensado, vivido e realizado por outros para se ter a garantia da singularidade do nosso exercício de agora. Para abrirmos diferentes caminhos há que se reconhecer a distância já vencida. Pela posse da tradição operamos transformações conscientes, sem acasos ou repetições.

Como Monteiro Lobato no Brasil, criador de uma literatura brasileira para os mais jovens ? com o rigor indispensável a todo fazer estético ?,também Ana de Castro Osório desempenha o mesmo papel em terras portuguesas. Ela abre portas para uma literatura infanto-juvenil de qualidade inquestionável como a existente em Portugal de hoje. Por bem saber das funções não apenas estéticas da literatura, a autora portuguesa reconhece, ainda, o ato político da escritura e de sua ação na construção do humano. Por outro lado, ela confirma a criança como um ser de reflexões e de busca das relações.

Imbuída em uma luta pela igualdade de direitos ? sabendo da importância da infância para a construção de um mundo renovado e digno, recorrendo também à oralidade rica de Portugal e atenta às questões singulares e pertinentes da sua cultura ? Ana de Castro Osório configura um trabalho em que se pode identificar as raízes de sua terra, lugar em que a literatura já alcançava grandes vôos.
Em toda a sua produção, a escritora deixa entrever o cuidado com a forma, com os assuntos buscados na fantasia, para estabelecer uma literatura em que o conceito de criança é tão atual quanto os de agora.

Em Branca-flor e outras histórias o leitor brasileiro poderá se encantar por tantos motivos. Em princípio, por meio da poesia que circula em todo o texto. Os elementos eleitos para compor sua obra confirmam a importância da observação como guia para a criação. É invejável a capacidade da autora de promover o observado à categoria artística. O que há de mais simples ganha, por meio de sua criação, atributos significantes, enquanto convida o leitor a praticar a sua fantasia diante do inusitado do dia-a-dia. Por acréscimo, é possível se envaidecer diante da diferença de construção da escrita. Experimentamos, ao apreciar seu texto, a vaidade de possuirmos uma fala brasileira que se origina de uma língua-mãe preciosa e de inesgotável beleza em que a musicalidade se confirma em cada oração.

Por ser assim, num momento em que lutamos para aproximar mais e melhor os países de língua portuguesa, nada mais oportuno que, por meio da literatura e da afetividade que conduz sua configuração, ter Ana de Castro Osório para iniciar também os mais jovens nesta viagem identificadora de nossa fraternidade e nossa cumplicidade.”

Belo Horizonte, junho de 2007.

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