Prefácio à edição brasileira (por Susana Ventura)

Talvez você tenha se interessado por este livro a partir do título. Meia hora para mudar a minha vida é um verso de Adriana Calcanhoto que ecoa nos nossos ouvidos e na nossa memória aqui no Brasil.

Mas o romance não é português? É sim, e de Alice Vieira, uma das melhores e mais amadas escritoras da língua portuguesa, que, desde 1972, ano em que publicou Rosa, minha irmã Rosa em Portugal, faz parte da formação leitora e da vida de milhões de leitores de língua portuguesa.

O livro que você vai ler agora é uma das obras mais sensíveis da autora e foi escolhido para esta edição porque conversa com o Brasil de uma maneira muito particular.

Nele, Gil Vicente e Adriana Calcanhotto se encontram, e, com eles, também Portugal e Brasil. Para não falar da conjunção entre passado e presente que acontece neste romance de tirar o fôlego, porque uma vez que a gente começa a ler, não dá para parar até chegarmos ao final. Um feito de Alice Vieira, que agora vamos descobrir juntos.

Gil Vicente é bem nosso conhecido. Auto da barca do inferno, Farsa de Inês Pereira, Auto da Índia e O velho da horta constituem parte do repertório que estudamos logo no início do Ensino Médio

Alice Vieira resolve visitar Gil Vicente no bem menos conhecido Auto da Feira (dizem alguns estudiosos que terminada em 1524, outros que é de 1526), em que o autor nos coloca diante de um elenco com várias personagens alegóricas, como Mercúrio, Tempo e Roma.

Gil Vicente não escolheu Mercúrio por acaso. Em 1524 houve um alinhamento de planetas e muitas previsões assustadoras foram feitas por vários adivinhos, apontando para o final do mundo naquele final de ano.

Vejamos como Mercúrio se apresenta e inicia a peça:

 Pera que me conheçais

e entendais meus partidos,

todos quantos aqui estais

afinai bem os sentidos

mais que nunca, muito mais.

 Eu sou estrela do céu,

e depois vos direi qual

e quem me cá decendeu,

e a quê, e todo o al

que me a mi aconteceu.

 

E porque a estronomia

anda agora mui maneira,

mal sabida e lisonjeira,

eu à honra deste dia

vos direi a verdadeira.

 

Muitos presumem saber

as operações dos céus,

e que morte hão de morrer,

e o que há de acontecer

aos anjos e a Deos.

 

E ao mundo e ao diabo!

E que o sabem tem por fé…

E eles, todos em cabo,

terão um cão polo rabo

e nam sabem cujo é.

 

E cada um, sabe o que monta

nas estrelas que olhou,

e ao moço que mandou,

nam lhe sabe tomar conta

dum vintém que lhe entregou.

 

Desta maneira, mestre Gil Vicente começa o auto tranquilizando seu público: o mundo não vai acabar coisa nenhuma e as previsões catastróficas nada mais são do que suposições mal fundadas de gente que não consegue sequer tomar conta de sua própria vida. Ainda nesse prólogo, Mercúrio vai citar o astrônomo e matemático português Francisco de Melo que tratava, naquela época, de tranquilizar a todos com informações científicas bem fundadas, que mostravam que o alinhamento de planetas não iria causar nenhum mal ao mundo e seus habitantes.

Também Alice Vieira não escolheu este auto vicentino por acaso para contar a história de Branca, uma menina que nasceu e cresceu num teatro onde Auto da Feira era representado todas as semanas, a cada domingo e onde seus atores resolveram tomar para si os nomes das personagens. O teatro de nosso romance surgiu pelas mãos do senhor Vicente, que desejava ardentemente ser ator e transformou sua herança num teatro que ficaria num bairro popular da cidade de Lisboa. Uma caixa de livros que foi parte da herança contém a chave para a vida futura daquela família: as obras de Gil Vicente estavam ali, como um sinal indicativo de que o repertório começaria pelas obras do grande dramaturgo da Península Ibérica.

Com o passar dos anos, a amável família/trupe teatral se torna ponto de convergência de candidatos a atores e atrizes e seu teatro, o local de encontro de vizinhos, que assistem e participam das apresentações com entusiasmo. Torna-se, também, parte da vida da mãe da protagonista Branca, que, sozinha e grávida, um dia bate na porta e passa a integrar o elenco e a família.

Nascida em pleno palco, em noite de apresentação de Auto da Feira, Branca terá uma infância rica e singular. O primeiro encontro com o Brasil se dará através das canções que Justina, uma das atrizes, ensaia. São sempre canções brasileiras, as preferidas de Justina, que se tornam parte da vida da pequena Branca.

Mais tarde, afastada da família adotiva, Branca encontrará em Talita, uma empregada doméstica, o novo elo de ligação com a afetividade e com o Brasil. Talita traz novas doses de amor e esperança para a vida de Branca, e também esta relação vem emoldurada pela música, em especial pelas canções de Adriana Calcanhotto.

Questões muito profundas surgem: bastam mesmo poucos minutos para mudar a nossa vida? As mudanças podem ser para melhor? Por que tudo é tão complicado?

Encontros entre o teatro medieval e a música contemporânea e seu material permanente, que atravessa os tempos: nossa humanidade, complexa e ao mesmo tempo maravilhosa.

Na Feira de Gil Vicente, Mercúrio diz ao Tempo:

Faço mercador-mor,

ao Tempo, que aqui vem;

e assi o hei por bem,

e não falte comprador,

porque o Tempo tudo tem.

Na Feira construída por Alice Vieira, como naquela construída por Gil Vicente há quase quinhentos anos, nada é realmente vendido, tudo é trocado. E as pessoas que comparecem à Feira estão atrás de algo maior e que todos queremos: a Felicidade.

Boa leitura!

 Susana Ventura

Professora de Literaturas de Língua Portuguesa e apaixonada por leitura.

 

 

 

 

 

 

 

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