“A flor mal-humorada”, de Renato Rocha, inaugura a coleção “Livro & Música” da Editora Peirópolis
Neste poema acalorado, encontramos a flor resmungona (que tem lá os seus motivos), a borboleta displicente (que é rejeitada pela flor), o vaso paciente (que toma as dores da borboleta) e a mesa filosófica (que toma o silêncio da terra)…
As ilustrações de Sheila Dain se desdobram em detalhes e cores que nos aproximam das personagens – e nos fazem experimentar seus sentimentos e reflexões.
No CD encontramos este poema teatral transformado num diálogo de canções. Gravado no Estúdio Sinfônico da Rádio MEC, no Rio de Janeiro, com arranjo e regência de Ignez Perdigão, esta peça contou com a participação dos seguintes cantores:
Narrador: Renato Rocha
A flor: Mariana Bernardes
A mesa: Luciana Lazulli
O vaso: Sérvio Túlio
E contou com a participação dos seguintes instrumentistas:
Violão: Renato Rocha
Flauta: Andrea Ernest Dias
Oboé e corne-inglês: Luis Carlos Justi
Fagote: Mauro Ávila
Trompa: Philip Doyle
Clarinete: Ricardo Ferreira
“A flor mal-humorada”, livro e CD, é uma obra delicada, repleta de detalhes que nos instigam e nos acolhem. Aliás, um estilo que vem de longe…
O disco “Adivinha o que é”, interpretado pelo MPB-4, lançado em 1981, traz cinco canções de autoria de Renato Rocha:
“O verbo flor”
“Todo mundo sabe dormir”
“A lua”
“Adivinha o que é”
“O sono dos bichos”
E ainda traz mais cinco canções de Renato Rocha em parcerias:
“O som dos bichos”: Geraldo Amaral e Renato Rocha
“O galo cantor”: Geraldo Amaral e Renato Rocha
“Composição estranha”: Ronaldo Tapajós e Renato Rocha
“Botões”: Ronaldo Tapajós e Renato Rocha
“Nomes de gente”: Geraldo Azevedo e Renato Rocha
São composições belíssimas!
Mas não escute o que eu estou dizendo – escute as canções. Procure aquele seu vendedor de discos habituado a garimpar diamantes, pesquise na internet, telefone agora mesmo para os amigos…
Em “O verbo flor”, por exemplo, Renato Rocha expõe o seu artesanato poético:
O verbo flor
é conjugável
por quase todas
as pessoas
em certos tempos
definidos
a saber:
Quase nunca no outono
no inverno quase não
quase sempre no verão
e demais na primavera
que no coração
poderá durar
e ser eterna
quando o coração conjugar:
Quando eu flor
Quando tu flores
Quando ele flor
E você flor
Quando nós
Quando todo mundo flor
Em “Todo mundo sabe dormir”, Renato Rocha cria este poema de ninar:
Não precisa usar
mãos para pegar
não precisa usar
os pés para chegar
aonde o sono está
Tem só que fechar
a janela do olhar
e a porta da voz
Todo mundo sabe dormir
gente, gato, jaboti
peixe, macaco, leão
mosca, mosquito, siri
Todo mundo sabe dormir
elefante, bem-te-vi
pinto, cachorro, pavão
só essa menina não
Todo mundo sabe dormir
só essa menina não
Na canção, a palavrinha “não” do derradeiro verso (só essa menina não) dá uma pirueta e se transforma na palavrinha “não” do primeiro verso (Não precisa usar”). Além do efeito poético surpreendente, este recurso evidencia a circularidade do que está sendo vivido: lutar contra o sono, buscar o sono, a noite, o dia, os pais que cantam e tornam a cantar…
Renato Rocha também realiza este jogo circular na canção “A lua” – além de muitos malabarismos verbais:
A lua
quando ela roda
é nova
crescente ou meia-lua
é cheia
e quando ela roda
minguante e meia
depois é lua novamente
Quando ela roda
é nova
crescente ou meia-lua
é cheia
e quando ela roda
minguante e meia
depois é lua nova
Mente quem diz
que a lua é velha
mente quem diz
que a lua é velha
mente quem diz
Se estas palavras já cantam simplesmente acompanhadas pelos olhos da leitura – imaginem acompanhadas pelas leituras das vozes e dos instrumentos.
Estas canções não apenas se comunicam diretamente com as crianças e seus adultos, mas também são memorizáveis – porque a sua complexidade é desafiadora, e desperta o desejo de trazer a canção para junto do corpo.
Estas canções de Renato Rocha, trinta anos depois!, não apenas mantiveram o vigor criativo original, mas também se deixaram encharcar pelas sensibilidades futuras – como seres vivos, autônomos, que se transformam ao interagir com o mundo. Como explicar algo assim tão estranho?
Simples: é mistério, é obra de arte. E é por ser mistério que a gente se dedica – com tanto rigor e liberdade – a apreciar uma obra de arte.
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