O que é o Projeto Quixote?

Uma escola? Um ambulatório de saúde mental? Um circo? Um centro cultural?

Face à monstruosa injustiça social que abandona e entristece muitas crianças e muitos adolescentes no Brasil, o Projeto Quixote nasce com um sonho: a afirmação da vida, da subjetividade, das potencialidades de meninos e meninas em situação de vulnerabilidade social.

O PROJETO QUIXOTE QUER CONSTRUIR UMA OUTRA HISTÓRIA.

Os primeiros registros de atendimento são de 1997, ano em que chegaram ao Quixote cerca de 350 crianças, jovens e famílias. De lá para cá, foram atendidos cerca de 15 MIL, e realizados mais de 250 MIL ATENDIMENTOS, cada um deles com intensidades, sofrimentos e conquistas próprios. São muitas histórias em tantos anos, todas permeadas por situações de vulnerabilidade, violência e vontade de mudar e ter uma vida mais interessante. A MAIORIA DAS CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES QUE CHEGAM AO QUIXOTE É DO SEXO MASCULINO E TEM ENTRE SEIS A DEZOITO ANOS, COM DESTAQUE PARA A FAIXA DOS DEZESSEIS ANOS. O motivo de chegada mais relatado sempre foi “participar de atividades” ou “curiosidade”, seguido por motivos relacionados à saúde, como uso de drogas ou busca por psiquiatra, psicólogo; problemas de aprendizagem também é uma das queixas. Cerca de 20% nem sabem por que nos procuram e 10% chegam ao Quixote por ter sofrido violência sexual, física ou psicológica.

DEVIDO À DEPENDÊNCIA AFETIVA E FINANCEIRA EM RELAÇÃO A UM ADULTO, AS CRIANÇAS E OS ADOLESCENTES FICAM MUITO VULNERÁVEIS ÀS VIVÊNCIAS DE REJEIÇÃO, HUMILHAÇÃO, AMEAÇAS, DESRESPEITO E ATÉ MESMO PUNIÇÕES EXAGERADAS.

Esse dia a dia às vezes não deixa marcas corporais visíveis, mas suas cicatrizes podem construir uma armadura que persiste por toda a vida. A falta de cuidados básicos com a manutenção de alimentação ou higiene, a proibição da expressão natural da criança, da sua bagunça, do seu brincar, do lúdico, a omissão de tratamento médico ou a falta simples de atenção são vivências avassaladoras para qualquer um. Mas sem dúvida o abuso sexual provocado por adultos contra a criança ou o adolescente é bastante complexo.

No panorama dos efeitos devastadores desse tipo experiência, percebemos que, para aquele que vive a violência, como resultado da perversão do adulto, O RISCO MAIOR É A ANGÚSTIA DA MORTE, MORTE DA VIDA COMO SUJEITO. A violência é exatamente a antecipação de uma experiência para a qual a criança não está preparada. A criança vai sinalizando que não está bem. E a aura do segredo e da invisibilidade do problema coloca a criança ou o adolescente em uma situação de desproteção enorme. Os familiares com frequência se perguntam sobre as razões da falta ou da negação da percepção, demonstrando a dificuldade em admitir que algo tão inadmissível possa acontecer. Quando a situação é revelada, há uma ruptura familiar, e a forma como isso é tratado – em todos os níveis (jurídicos, sociais, clínicos) – influencia todos os envolvidos (Rondello e Nakagawa, 2007).

O manto da invisibilidade

Uma única criança na rua já seria suficiente para pensarmos que algo não deu certo. Seja na escola em que ela estudava, seja na comunidade em que vivia, seja na família que a envolvia. Por alguma razão, ou por várias, sua rede de proteção social e afetiva não deu conta de acolher de forma adequada as demandas de desenvolvimento de sua infância, suas curio- sidades e suas angústias, seu futuro. Algo se rompeu – ou se interrompeu –, como uma espécie de exílio, imposto pela necessidade de sair de casa e distanciar-se de suas histórias, das pessoas com as quais ela possui vínculos afetivos, com os cheiros, as roupas, o cachorro, sua mátria. Muitas vezes, experiências de violência e violação de direitos facilitam dinâmicas expul- sivas da família. Para algumas crianças e adolescentes brasileiros, a rua se torna um local de refúgio, moradia, lazer, sobrevivência e apelo.

Como verdadeiros quixotinhos, despedem-se de suas mátrias, nas periferias em geral feias e inacabadas, rumo a uma realidade desconhecida, na esperança de melhores aventuras, respeito e segurança. Mas acabam se confrontando com a realidade e a crueldade da rua.

NA RUA, ESSAS CRIANÇAS VIVEM UM TEMPO FUGAZ, O AQUI E AGORA QUE AJUDA A ESQUECER O PASSADO E OFUSCAR O FUTURO.

(CLAUDE OLIEVENSTEIN, psiquiatra fundador do Centre Médical Marmottan, em Paris)

OLIEVENSTEIN

EXCLUSÃO E MARGINALIDADE; PARADIGMA HUMANISTA; SUBSTÂNCIA, INDIVÍDUO, CONTEXTO.

A COMPREENSÃO DE QUE AS CONDIÇÕES DE VULNERABILIDADE SOCIAL ACABAM POR GERAR SITUAÇÕES DE EXCLUSÃO QUE FAVORECEM O USO DE DROGAS, NO CASO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RUA, MARCA E DEFINE TODA A CONSTRUÇÃO PRÁTICA E CONCEITUAL DO PROJETO QUIXOTE.

 

(OSWALDO DANTE MILTON DI LORETO, médico e psiquiatra brasileiro)

DI LORETO

TRABALHO EM REDE GENEROSIDADE HUMANISMO MÉTODO ÉTICO-ESTÉTICO COLETIVO; CULTURA DA TROCA RODA.

A ESTRUTURA DO QUIXOTE E SUA OPÇÃO DE INTEGRAR DIFERENTES OLHARES, PROGRAMAS, PROJETOS E EQUIPES E, AINDA ASSIM, MANTER UM AR SOLTO, ACOLHEDOR, FORA DA CAIXA, IMPLICA UM INTENSO E CONSTANTE TRABALHO DE EQUIPE PARA GARANTIR QUE TUDO FUNCIONE BEM, PARA DAR CONTA TAMBÉM DAQUILO QUE É ESPECÍFICO.

 

(PAULO REGLUS NEVES FREIRE, educador, pedagogo e filósofo brasileiro)

PAULO FREIRE

ÉTICO-ESTÉTICO; EDUCAÇÃO; PRÁTICA COTIDIANA; BONITEZA; PAIXÃO DO SABER; ALEGRIA DE CRIAR; PRAZER DO RISCO.

A BELEZA NÃO É PRIVILÉGIO DE UMA CLASSE, MAS UMA CONSTRUÇÃO COMPARTILHADA POR TODOS, PRECISANDO SER CONQUISTADA A CADA MOMENTO, A CADA DECISÃO, POR MEIO DE EXPERIÊNCIAS E ATITUDES CAPAZES DE CRIAR E RECRIAR O MUNDO.

 

(MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA, romancista, dramaturgo e poeta castelhano)

CERVANTES

IMAGINAÇÃO; ARTE; CRIATIVIDADE; REALIDADE; LOUCURA; SONHOS; REALIZAÇÕES.

DESDE O COMEÇO, A GENTE PENSOU: VAMOS LOGO NOS CHAMAR DE “QUIXOTESCOS” DE ALGUMA FORMA, PORQUE A GENTE QUER, SIM, MUDAR O MUNDO.

CERVANTES LEMBROU QUE QUERER SALVAR O MUNDO É SUBLIME, JULGAR-SE O SALVADOR É RIDÍCULO.

O LEGADO DE MIGUEL DE CERVANTES FOI FORJAR NA ALMA DA HUMANIDADE, COM FERRO EM BRASA, UM ETHOS. CAMINHANDO NUM FIO DA NAVALHA ENTRE O SUBLIME E O RIDÍCULO, MOSTROU QUE CADA UM DE NÓS ESCREVE SUA PRÓPRIA HISTÓRIA. NEM ANJO NEM DEMÔNIO. NEM HERÓI NEM ANTI-HERÓI. SIMPLESMENTE HUMANO.

AS REFERÊNCIAS FUNDAMENTAIS DO QUIXOTE SÃO PESSOAS, IDEIAS, VISÕES DE MUNDO, EXPERIÊNCIAS PREGRESSAS, EXPERIÊNCIAS FUTURAS, SONHADAS E TRABALHADAS PARA QUE VIREM REALIDADE. A ARTE PELO SIMPLES FATO DE TALVEZ FALARMOS DO PROJETO QUIXOTE, E QUIXOTE SER PRODUTO DA ALMA CRIATIVA DE UM ARTISTA QUE FOI O CERVANTES, ISSO NOS MOSTRA QUE AS ARTES SÃO FUNDAMENTAIS. [AURO LESCHER]

 

O OLHAR TRIDIMENSIONAL, MÚLTIPLO, PERMITE QUE A CRIANÇA E O ADOLESCENTE SEJAM ACOLHIDOS SEM O FOCO NA QUEIXA INICIAL NEM NO SINTOMA MOTIVADOR DA IDA AO QUIXOTE.

A estratégia gera uma perspectiva mais oblíqua e global, permitindo, ao mesmo tempo, um olhar individual sobre cada criança e adolescente e um olhar amplo para o coletivo.

OLHAR PEDAGÓGICO

O olhar pedagógico presta atenção ao desenvolvimento de saberes, habilidades, capacidades, talentos, projetos; ao fazer, conviver, expressar-se, para o conhecimento formal e informal e a valorização de todas essas produções e todos esses processos. A casa toda é organizada como um ambiente de aprendizagem – nos cantos, nas oficinas, na brinquedoteca, na biblioteca. O espaço é brincante, como uma grande caixa lúdica em que a arte está sempre presente. Brincar, experimentar e aprender, saber de si, do outro e do mundo.

OLHAR SOCIAL

O olhar social se preocupa com a realidade social e comunitária de cada família, com os direitos, os benefícios, a sociabilidade, o contexto dos recursos da rede e a articulação de tudo isso.

OLHAR CLÍNICO

O olhar clínico é a escuta e o cuidado da subjetividade, das fantasias, dos medos, das angústias e dos desejos, dos sintomas e das demandas. Eles têm dores, sofrimentos e precisam tratar disso. Há casos de transtornos psíquicos – alguns decorrentes do uso indevido de drogas, outros das situações de violência sofrida –, há problemas de aprendizagem e outras questões de saúde mental.

O OLHAR DO EDUCADOR perpassa todas as atividades, independentemente de o profissional ser um médico, um oficineiro, um recepcionista etc. Consideramos que o educador tem um olhar tridimensional, que inclui a subjetividade, o social e a aprendizagem.

UMA ILHA PARA SANCHO PANÇA

O QUE É O PROJETO QUIXOTE?

É UM AMBULATÓRIO DE SAÚDE MENTAL, PORQUE USAMOS INSTRUMENTOS MÉDICOS E PSICOLÓGICOS PARA ALIVIAR AS DORES DO CORPO E DA ALMA?

É UM CENTRO CULTURAL, PORQUE DANÇAMOS O BREAK E GRAFITAMOS OS MUROS DA CIDADE?

É UM CIRCO, PORQUE FAZEMOS NOSSOS MALABARISMOS?

UM CENTRO DE FORMAÇÃO E PESQUISA DE EDUCADORES, PORQUE QUEREMOS MUDAR O MUNDO?

OU UM CAMPO DE REFUGIADOS, PORQUE ACOLHEMOS CRIANÇAS E JOVENS QUE TRANSITAM PELAS RUAS DO CENTRO DE SÃO PAULO?

Somos tudo isso misturado – uma escola. Uma escola em 3-D (em três dimensões). A profundidade, o volume, se dá pelo olhar muito cuidadoso dos educadores à subjetividade de cada criança, cada jovem ou cada fa- mília que frequenta o Quixote.

Uma das interpretações etimológicas para a palavra “educar” é a possibilidade de despertar no outro a sensação gustativa do doce.

Quando conseguimos compartilhar com uma criança de um ano de idade sua primeira experiência de intimidade com o chocolate, percebemos a intensidade dessa descoberta: o êxtase se apresenta, lambuzando seus dedos, seu rosto e o olhar de quem observa.

Quando um jovem deseja escrever uma outra história instigante, para si mesmo e para o mundo em que ele vive, podemos crer, com poucas chances de nos equivocar, que práticas educativas em 3-D estão acontecendo, ajudando-o a enfrentar dragões e moinhos de vento, feito o incansável Dom Quixote, que afirma, ao longo dos séculos, a potência do ser humano de tomar para si o próprio destino. Toda boa escola deve ser uma fábrica de chocolates.

– AURO LESCHER

“O QUIXOTE É O LUGAR DOS SEM LUGAR.”

 

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