Falar de peladas é falar da minha própria história. Graças às peladas é que cheguei até onde cheguei. Eu saí de lá, tabelando com o meio-fio, com a parede, jogando em cima do paralelepípedo e da terra batida. Descalço, arrebentei muitas vezes a cabeça do dedão do pé. Doía, levantava a pele, sangrava, mas eu continuava a correr e a jogar pelos campinhos e ruas nas tardes infinitas das peladas do Quintino.
A pelada é tudo na vida de um jogador de futebol. Ela te dá reflexos, liberdade de criação, te ensina a inovar, a abrir espaços, a se localizar entre os jogadores, a fazer gols. Eu jogava com bola de borracha, de plástico, de meia. De tudo que fosse redondo e desse para chutar a gente jogava lá em Quintino.
Nos campinhos, gostava de imaginar que era o Dida, o craque da Gávea nos anos 1960, ou mesmo meus irmãos mais velhos, o Edu e o Antunes. Como eram gostosos aqueles sábados à tarde, quando fechávamos as ruas com o cavalete para não passar carro e a gente jogar sem perigo. A coisa fervia!
Acho que tinha uns 7 anos de idade quando descobriram que eu jogava bem. E aí todo mundo me queria no time. Eu passava o dia de pelada em pelada. Não negava nenhuma.
Joguei em tudo que é time no subúrbio em que nasci e me criei, na zona norte do Rio de Janeiro. E enquanto vivia atrás da bola, nem podia imaginar que, um dia, já nos tempos de Flamengo, esse bairro me daria um apelido: o Galinho de Quintino.
Hoje eu ainda bato uma bolinha. Sempre que dá, a gente reúne os amigos, mas só na grama, por causa do meu joelho. Nada como uma boa pelada para alegrar nossas vidas.
Uma alegria que transborda das páginas deste livro do fotógrafo Caio Vilela. Percorrendo suas imagens, me senti viajando pelo Brasil. Quando estou na estrada, assim como ele, sempre que tem uma criançada num campinho, não resisto em dar uma espiada e descobrir quem é o craque, o futuro camisa 10.
Outra sensação que o livro me trouxe foi a de voltar no tempo. Recordei, nitidamente, a vez em que jogava numa praia da Bahia e a maré foi enchendo, enchendo, até acabar com a praia e a pelada. Ninguém ligou. Saiu todo mundo dando risada e mergulhou no mar.
Afinal, pelada é isso aí mesmo. É o futebol sem compromisso, sem imprensa, sem dinheiro. É o futebol puro. É brincadeira, alegria na veia. Talvez por isso não me lembre de nenhuma pelada em especial. Nem de nenhum gol de pelada. E devem ter sido mais de dois mil, alguns mais bonitos do que aquele de voleio contra a Nova Zelândia na Copa de 1982. Eu me lembro é de todos os gols e de todas as peladas da minha infância juntos, ao mesmo tempo, numa única emoção. Ah, meus tempos de pelada! Ah, bons tempos que não voltam mais!

Zico

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