Foto de Samuel Macedo

Foto de Samuel Macedo

Íntegra do texto de Gandhy Piorsky para o prefácio de Terra de Cabinha, de Gabriela Romeu

As crianças são sensíveis à atmosfera simbólica da comunidade. Tal ambiência pressentida é um envoltório, um halo, uma camada espessa e aglomerada de substâncias das histórias ouvidas, da recolha do amplo código das impressões adultas, das sapiências dos mais velhos, dos gestos dos trabalhos dos pais, dos cheiros das cozinhas, da súbita visão das mazelas nos corpos alheios, do burburinho e quietude das casas, das sonoridades da noite e do dia.

A infância é um estado que se sustenta pelo contínuo trabalho de instilar, peneirar, filtrar o mundo. Crianças são como espécies de crustáceos dos bancos de areia do mar, espécies de pássaros garis da natureza: fazem continuamente o trabalho de renovar as sobras do mundo, digerindo-as em uma calórica forja imaginadora, transformando aquelas sobras, aquilo apanhado de pouquinho, em novos nutrientes, em artefatos da brincadeira, em crenças e certezas muito jovens, recém-nascidas, porém embevecidas de fascínio.

Gabriela Romeu, em sua etnografia literária, em seu versejar de realidades sonhadas, acessa a medida central do trabalho da criança. Encontra a faixa entre o tangível e o fantástico onde a lavra diária do brincar realiza sua função primeira: sonhar o real e, no mesmo instante, dar concreção, realizar o sonho. Em Terra de cabinha, Gabriela decide trabalhar a partir do lugar em que habita a Caboclinha aqui narrada, ou Maria Fulozinha, ou Menininha senhora da mata. Esse ente, um ser fantástico das histórias do Cariri, labuta no rapto de crianças, do lugar onde não há céu nem terra, só mata. Assim também o faz nossa autora: captura estados de meninice engenhando seu texto, sua pesquisa, no território sem céu e sem terra, no espaço das encantarias da infância.

Terra de cabinha discorre por essa atmosfera, pois, desde os primeiros parágrafos até o final, o leitor é envolto por um largo facho luminescente de levezas suspensas, flutuando, nos tocando, roçando, penetrando os poros de nossa imaginação, criando imagens e onirismos dos motivos mais fundamentais que alimentam uma infância bem vivida. Como diz Bachelard, de uma infância com grande medida de cosmicidade. Amplificada no contato com assombros, estranhamentos, formas e sons, sensações e desafios providos de uma realidade mágica, reclusa, imantada e viva no presente de cada porta aberta pela palavra, pelos causos dos mais velhos, pelos lugares dados ao mistério.

Adivinhas, feitiços, espectros, presságios, profecias, antropomorfismos, simpatias, oráculos, tabus e encantados encarnados transversam o brincar. Abrem, de um só arregaço, o mundo até as fronteiras do infinito, fazem do desconhecido uma realidade pulsante capaz de atingir os descuidos, os atos incautos. Meninos e meninas de cosmicidade têm mais chances de defesas, mais guaritas, contra a nefasta meta civilizacional em que vivemos, a infantilização da criança. São logo cedo inseridos na aguda percepção de não se crer só no visto, mas numa teia complexa de realidades paralelas benéficas e nefastas.

Tio que vira lobisomem, menino pilado no pilão pra aprender a andar, passar o sangue do passarinho no couro da baladeira, reino que virou pedra, profecia para os dias de chuva, prisão de santo, história de assombração, reisado e caretas, macacas e castigos, Caboclinha, água de chocalho para o verbo nascer, mestres de tantos afazeres, legendas áureas de santos e seus poderes, são um vasto espectro de impressões profundas, dínamos da alma, calor para o coração, alimento substancioso  do campo imaginador, pronto, na criança, para vicejar.

Rica colheita Gabriela nos traz de suas andanças. Urgente intento ela nos propõe. Muitas, mas nem todas, dessas crianças do Cariri têm o privilégio de receber da cultura suas proposições metafísicas. Muitas, e quase todas, das crianças dos grandes centros urbanos já não conhecem a força nutricional dos causos, mitos, lendas, histórias e práticas de diálogo com o mundo natural encarnadas em suas esquinas, na casa abandonada do vizinho, em seus quintais, nos rios de sua cidade. Esse animismo criado pela cultura é o mais poderoso dinamismo animador, recriador dos sonhos da infância.

Reconhecê-lo ainda vivo, permeando a brincadeira, saber de sua notícia, de sua atuação envoltória que se assoma à saúde do corpo e dos sonhos de tantas crianças, nos faz abrir a visão para o que em grande medida já se esvaiu no mundo urbano, o sustento onírico contido na cultura. Aquele dado mágico, misterioso, causa de maravilhamento nas turbas do brincar. Mundo assim é lugar revelatório para a criança, é ambiência de aberturas e alargamentos de seu ser.

Há que se formular uma pedagogia dos encantados, do espaço fantástico da criança. Para tanto necessitamos de apontamentos etnoliterários, coletas mitológicas, fragmentos de sonhos como os que aqui podemos bem apreciar. E, se soubermos ver, este singelo texto nos leva a caminhos para além de um contexto cultural específico de um povo relampejado de inventividade e astúcia, de um Cariri amalgamado de sonhos geológicos, mitológicos e crianceiros, de estética primitivista e oralidade do repente. Terra de cabinha nos leva à topologia, à terra, ao chão primordial da infância, à faixa germinal de transformação do real em imaginário.

 

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